Enquanto cientistas de vários ramos sentem dificuldade para captar
recursos no Brasil, a arqueologia aproveita o grande número de obras
para aumentar o número de pesquisas na área. Por lei, toda obra de médio
ou grande porte deve fazer uma avaliação arqueológica do terreno, o que
cria oportunidades para a ciência.
“Eu comparo o nosso mercado com o da engenharia civil”, apontou Sérgio
Bruno Almeida, arqueólogo que é sócio da Fronteiras, uma empresa goiana
que trabalha com pesquisas em sítios de constr
Prato de cerâmica indígena encontrado durante as obras de um gasoduto em Coari (AM)
(Foto: Eduardo Tamanaha/Divulgação)
A determinação de que todo canteiro de obras deveria passar pela
análise de um arqueólogo veio em 2002, com uma portaria publicada pelo
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Em 1991, o Iphan liberou apenas seis pesquisas arqueológicas no país.
Em 2011, foram 1018 pesquisas liberadas. “Foi um crescimento exponencial
da arqueologia”, definiu Eduardo Neves, professor de arqueologia na
Universidade de São Paulo (USP).
Foi a partir dessa nova norma que o mercado da arqueologia começou a se
expandir – e tendência ainda é de crescimento. A arqueóloga Lucia
Juliani largou sua carreira como funcionária pública e abriu A Lasca,
uma empresa que conduz pesquisas arqueológicas para obras em São Paulo.
Lucia e sua equipe têm feito descobertas interessantes na região de
Pinheiros, na Zona Oeste da capital paulista. Os estudos da região
revelam detalhes do estilo de vida dos habitantes da região no fim do
século 19 e no início do século 20.
“A gente encontra restos das lixeiras”, contou a especialista. “Isso é
muito importante para a arqueologia porque conta dos hábitos de consumo
das populações da época”, completou.
Pesquisas conduzidas no Largo da Batata, na mesma região, indicam que o
local tenha sido usado como um depósito de lixo durante o período em
que São Paulo se expandia para essa área.
Também foram encontrados fundamentos de casas com estruturas de
palafitas. Na época, o Rio Pinheiros chegava até ali durante as cheias.
Ao longo do século 20, boa parte do rio foi aterrada na região, que hoje
é ocupada por bairros nobres.
Segundo ela, além do lixo, louças e vidro são os materiais mais
encontrados entre os vestígios das casas antigas. Recentemente, em uma
pesquisa em um canteiro de obras no bairro do Itaim Bibi, um objeto em
especial chamou a atenção. “Achamos um anel de rubi, que é um achado
raro, porque ninguém joga uma joia fora”, destacou.
Anel de rubi encontrado em obras em São Paulo
(Foto: A Lasca/Divulgação)
Do lado das construtoras, os estudos são vistos como uma forma de
interagir com a comunidade, pois contam a história do bairro. No
entanto, do ponto de vista dos negócios, é um fator que exige
planejamento.
“Tudo isso levou mais de um ano”, ponderou Deise Poli, diretora de
desenvolvimento da Tishman-Speyer, construtora responsável pela obra
onde o anel foi encontrado. “É um dado a mais que deve ser incluso no
cronograma de obras”.
‘Isso tem vários lados’
A expansão do mercado é motivo de comemoração para os arqueólogos, mas há ressalvas. “Isso tem vários lados. Na prática, cria um monte de problemas”, avaliou Eduardo Neves, professor da USP. “É como uma doença do crescimento de um adolescente”, comparou.
Segundo ele, as pesquisas conduzidas pelas universidades ainda têm
maior impacto científico. Em sua avaliação, a grande demanda impede que
as empresas de arqueologia dediquem tempo para análises. O trabalho,
então, resulta em relatórios que vão para o Iphan, mas que não se tornam
referência.
“Tem um desafio importante que é transformar esse mundaréu de dinheiro
em conhecimento sobre o passado. Isso a gente não conseguiu fazer
ainda”, apontou Neves.
O próprio professor também conduz pesquisas em locais preparados para a
realização de obras. Recentemente, durante a construção de um gasoduto
da Petrobras no Amazonas, a equipe de Neves identificou 43 sítios
arqueológicos. A pesquisa revelou objetos – produtos em cerâmica, entre
outros – que forneceram informações sobre a cultura de tribos indígenas
de antes do período colonial.
Pesquisas
do Gasoduto Coari/Manaus, em Anamã (AM); as bandeiras amarelas marcam
objetos considerados importantes pelos arqueólogos (Foto: Eduardo
Tamanaha/Divulgação)
“Para a pesquisa acadêmica foi um grande avanço, pois os arqueólogos
conseguiram chegar onde a logística não é nada fácil e o acesso só é
possível através dos rios”, afirmou Eduardo Tamanaha, pesquisador que
fez parte da equipe de Neves.
No entanto, toda a riqueza dos materiais encontrados no local está
ameaçada, segundo o líder do estudo, porque falta um projeto para
destinar o que foi coletado. “O material desse projeto está guardado de
forma precária na Universidade Federal do Amazonas de forma precária, e
ainda não encontramos um lugar para colocar isso”, lamentou Eduardo
Neves.
O exemplo serve para ilustrar um risco que a construção civil oferece à
arqueologia. “Essas obras estão gerando um impacto sobre o patrimônio,
porque estão destruindo os sítios. O que é destruído vai embora para
sempre”, lembrou.
A partir daí, Neves ressaltou que o país precisa regulamentar a
profissão, de forma a garantir a qualidade das pesquisas feitas antes
das obras. “A gente não sabe quantos arqueólogos o país tem hoje”,
alertou o pesquisador.
Fonte: G1.
Nenhum comentário:
Postar um comentário