O cientista político Clésio Arruda diz que, no pleito de 2010,
o
palanque de Dilma Rousseff no Ceará estava homogêneo,
evitando
constrangimentos
Foto: Kiko Silva
Faltando menos de um mês para o primeiro turno das eleições, os
presidenciáveis têm participação tímida na campanha eleitoral do Ceará.
Contradições das coligações partidárias e falta de identidade com
candidatos ao Governo do Estado colocam postulantes a presidente da
República em situação pouco confortável no Estado. Longe dos comícios,
pleiteantes cearenses têm de se contentar com palanques eletrônicos, com
rápidas aparições no rádio e na televisão ao lado de lideranças
nacionais.
O imbróglio que circunda as alianças no Ceará propicia que somente os
presidenciáveis dos partidos pequenos tenham trânsito livre nas
campanhas do Ceará. A coligação formada por PSTU, PSOL e PCB e apoiadora
da candidatura de Ailton Lopes ao Governo do Estado já recebeu Zé Maria
Almeida, Luciana Genro e Mauro Iasi em atividades de campanha do Ceará.
Os três são postulantes ao Palácio do Planalto por siglas da coligação.
A situação dos dois candidatos com maior expressão eleitoral, Eunício
Oliveira (PMDB) e Camilo Santana (PT), é desconcertante. Embora o
petista seja do mesmo partido da presidente Dilma Rousseff, ela não tem
se pronunciado em favor de Santana. Isso porque o adversário
peemedebista é aliado de primeira ordem da chefe do Executivo federal,
inclusive filiado ao PMDB do vice-presidente Michel Temer. Dilma veio ao
Ceará na última quinta-feira e não fez campanha para nenhum dos dois.
Eliane Novais não passa por constrangimentos em relação ao nome que o
seu partido, o PSB, apoia para a Presidência da República: a ex-senadora
Marina Silva. O problema é que, sem proximidade política entre as
postulantes e com a polarização das candidaturas de Eunício e Camilo,
torna-se cada vez mais inviável a transferência de votos da
presidenciável para Novais.
Alterações
O professor Osmar de Sá Ponte, do departamento de Ciências Sociais da
Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que, a essa altura da
campanha, dificilmente o cenário sofrerá alterações significativas na
influência de presidenciáveis no Estado. "A única possibilidade de mudar
seria um crescimento do Aécio Neves", declara, opinando que isso não
deve se concretizar.
Na avaliação do docente, essa possibilidade de crescimento do tucano,
aliada ao acirramento da campanha no Ceará, poderia levar Eunício
Oliveira a abrir palanque para Aécio. O peemedebista cearense, apesar de
declarar voto a Dilma Rousseff, é companheiro de chapa de Tasso
Jereissati, do PSDB. Com as quedas de intenção de voto em Aécio Neves,
Eunício Oliveira deve tentar descolar ainda mais o seu nome do
presidenciável.
Para Osmar de Sá Ponte, Marina Silva não vai conseguir arregimentar
votos pró-Eliane Novais, embora sejam da mesma legenda, por conta do
acirramento da disputa entre Camilo Santana e Eunício Oliveira. "A
tendência é a polarização diminuir a votação dela (Eliane). Só mudaria
se ocorresse um fato novo que associasse o nome dela ao de Marina. Não
há uma identidade e Marina não vai priorizar o Ceará como palanque
presidencial", afirma.
A pesquisa Ibope contratada pelo Sistema Verdes Mares e divulgado no
dia 3 de setembro mostra Eliane Novais com 4% das intenções de voto. O
último levantamento apontava a pessebista com 6% da preferência do
eleitorado. Eunício Oliveira perdeu dois pontos e ficou com 42%,
enquanto Camilo Santana chegou a 34%, subindo 20 pontos. Ailton Lopes
oscila de 3% para 2% na pesquisa.
Estável
O sociólogo Horácio Frota, coordenador do mestrado em políticas
públicas da Universidade Estadual do Ceará (Uece), ressalta que a
tendência é que o petista Camilo Santana comece a ter mais influência da
campanha de Dilma Rousseff no Ceará, apesar de a presidente estar
impossibilitada de pedir votos para ele. "Mesmo que não seja diretamente
para Camilo Santana, ele recebe influência dela. Isso faz com que
Eunício paralise qualquer ação com Aécio", relata.
Horácio Frota alega que, em eleições anteriores, os candidatos a
presidente eram mais presentes no Ceará, porque o cenário ficou estável.
"Não tinha um quadro que temos hoje, houve mais influência antes. Não
dá para brigar com Eunício ou então fazer o que o Lula fez na eleição
passada (quando pediu votos para José Pimentel e Eunício para o Senado).
É uma sensação muito esquisita", aponta.
O cientista político Clésio Arruda, professor da Universidade de
Fortaleza (Unifor), esclarece que houve uma mudança de contexto em
relação às eleições de 2010 devido ao desgaste de um projeto de governo
que já dura 12 anos. "Era mais fácil manter uma coalizão de partidos no
poder (...) É impraticável que se mantenha uma coligação
indefinidamente", argumenta.
O docente acrescenta que, há quatro anos, na reeleição do governador
Cid Gomes, o palanque de apoio à presidente Dilma Rousseff era
unificado. "Havia um palanque homogêneo no Ceará e no plano federal. Era
uma disputa bipolar. Isso levou os estados a terem uma definição mais
clara de apoio", elucida. "À medida que vai avançando na abertura de
novas forças políticas nos estados brasileiros, encontramos forças que
querem chegar ao poder", completa.
Para Josênio Parente, cientista político da UFC e da Uece, o poder do
PT no Ceará é ligado à imagem do ex-presidente Lula, e não à candidata à
reeleição Dilma Rousseff. "Ele conseguiu fazer uma base no Nordeste,
mas foi cada vez mais definhando e dando espaço ao PSB", opina.
Lorena Alves
Repórter
Repórter
Fonte: Diário do Nordeste / Política
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