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segunda-feira, 11 de março de 2013

Cuidados paliativos reduzem dores físicas e emocionais

Buscando humanizar o atendimento hospitalar, o César Cals implanta sua Comissão de Cuidados Paliativos

A Comissão não estimula os procedimentos invasivos e dolorosos, explica o presidente da CCP, o diretor médico José Walter Correia. No César Cals, os pacientes são acompanhados por uma equipe multiprofissional fotos: Kelly Freitas

Assistir pacientes que não apresentam mais evolução terapêutica, ou mesmo com prognóstico sombrio e irreversível. Esse é o objetivo da Comissão de Cuidados Paliativos (CCP) do Hospital Geral Dr. César Cals, que vem conseguindo humanizar o atendimento por meio de esforços para levar conforto e alívio ao sofrimento do enfermo em estado grave, bem como propiciar apoio emocional aos familiares.

Nessa unidade da rede estadual de saúde, a CCP foi instituída pela Portaria Nº 03/2013, de 29 de janeiro de 2013. Além de reduzir o sofrimento desse grupo de pacientes internado no hospital, a Comissão busca diminuir a hospitalização, ao atuar em parceria com o Programa de Assistência Domiciliar (PAD) do César Cals.

Isso acontece quando a equipe médica constata que o paciente pode permanecer sendo atendido em sua casa, o que, via, de regra se torna mais reconfortante para ele.

Além da participação da família durante todos os procedimentos e os direcionamentos do caso, a CCP possibilita ao enfermo o atendimento multiprofissional, destaca o presidente da comissão, o diretor médico do HGCC, José Walter Correia. Formada por médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos e pelo capelão do hospital, a Comissão de Cuidados Paliativos faz o acompanhamento e a avaliação do desempenho da saúde do paciente crítico.

"O apoio emocional oferecido pela psicóloga e pelo capelão são fundamentais ao doente e ao familiar nesse momento tão difícil", disse José Walter Correia, admitindo que não são estimulados procedimentos invasivos e dolorosos quando o paciente não oferece mais possibilidade de responder ao tratamento. "Conversamos com a família e esclarecemos a situação, mas é ela que decide", afirmou.

Esclareceu, ainda, que a transferência para a residência é feita conforme a avaliação do quadro e com o acompanhamento do Programa de Assistência Domiciliar. "Quando se trata de um doente crônico, com poucas chances de reversibilidade, havendo possibilidade, é preferível que ele continue sendo assistido em casa, com todo apoio necessário", ponderou.

Reconhecimento

Em Fortaleza, iniciativas semelhantes também foram adotadas com sucesso em outras unidades de saúde, tais como no Hospital São José de Doenças Infecciosas. No ano passado, por exemplo, a PAD do São José chegou a ganhar o Prêmio de Menção Honrosa no Congresso Interdisciplinar de Atendimento Domiciliar, ao relatar o caso de uma paciente com o HIV e neurotoxoplasmose, que atingiu uma evolução no seu estado geral de saúde que impressionou até mesmo a classe médica.

Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), os cuidados paliativos integram um tratamento voltado para a qualidade de vida dos pacientes e familiares em relação às doenças terminais, visando à aplicação de métodos que minimizem a dor do paciente e seus sintomas físicos, emocional, social e espiritual, incluindo também seus familiares.

"Os cuidados paliativos crescem em importância no mundo moderno", opina o presidente do Conselho Regional de Medicina (Cremec), Ivan Moura Fé. O médico lembra que o fato de as pessoas estarem vivendo mais as levam a conviver com mais doenças. "Então, além da preservação da vida, é necessário que pensemos em meios de tornar melhor essa longevidade", diz.

Ivan Moura Fé ressalva que, em situações nas quais um paciente não apresenta possibilidade de cura, essas comissões têm um papel fundamental na redução das dores. "O paciente precisa continuar sendo cuidado", frisa. O suporte oferecido por essas equipes reduz desconforto em diversas situações, como na ocorrência de dispneia (falta de ar), sangramento e até na angústia.

"É preciso amenizar o sofrimento físico, psicológico e emocional dos pacientes que já não apresentam possibilidades terapêuticas", ressalta. Além do César Cals, outros poucos hospitais da cidade já estão implantando o serviço, como o Waldemar Alcântara. "Os cuidados paliativos são um direito do paciente e um dever do médico", afirma.

Paciente tratada em casa volta a falar, andar e deglutir

Portadora de HIV e de neurotoxoplasmose deixou o São José sem prognóstico para o tratamento. Mas, com força de vontade, conseguiu reverter o quadro

"Ela não andava mais, não falava, não engolia e só se alimentava por sonda. A paciente não respondia ao tratamento". O depoimento é da assistente social Sílvia Tavares, coordenadora do Programa de Assistência Domiciliar (PAD) do Hospital São José. A paciente citada é Camila Oliveira (o nome é fictício), portadora de HIV (Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida) e de neurotoxoplasmose.

Sem prognóstico para o tratamento, Camila deixou o São José em julho de 2011, onde ficou dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Na época, com 31 anos, apresentava sequelas motoras, neurológicas e respiratórias, mas passou a ser atendida pela equipe multidisciplinar do PAD em sua própria residência. "Não tinha mais porque ela ficar internada, pois não havia mais muito ser feito e os remédios para o HIV podiam ser tomados em casa", disse Sílvia Tavares.

"Ela saiu do São José numa maca. Com os movimentos comprometidos. Era muito difícil crer numa reversão do quadro", recorda a nutricionista Eudóxica Sousa, também integrante do PAD, explicando que a paciente foi levada para casa porque se acreditou que o aconchego do lar era mesmo o melhor local para quem "estava praticamente desenganado".

Já a assistente social lembra, ainda, que antes da transferência a residência foi visitada e os parentes de Camila treinados por integrantes do PAD para recebê-la. Além de repassar aos familiares os medicamentos prescritos a equipe ensinou a forma de administrá-los. "O objetivo foi amenizar o sofrimento da paciente", disse Sílvia.

Desnutrida e com rigidez muscular severa, especialmente padrão flexor em membros e hiperextensão acentuada de pescoço e escaras (sacral e tornozelos), Camila ficou sendo tratada em casa pela equipe e familiares. Enfrentou, ainda, o abandono por parte do companheiro numa fase em que era totalmente dependente. Passados alguns meses, conquistou a posição bípede com apoio bilateral. A fisioterapia, acredita, Eudóxia Sousa e Silva Tavares, foi determinante no processo.

Uma das fisioterapeutas que acompanhou, Leoniti Dantas, é taxativa: "Nós procuramos ajudá-la a recuperar a autoestima, mas foram a força de vontade e a determinação dela que foram decisivos".

O motorista do PAD do São José, Nick Lauda Correia, lembra: "foi eu que levei a moça para casa, toda encarquilhada, quase nem se movia. Hoje, ela recebe a gente na porta".

O tratamento com coquetel é constante, ainda sim Camila fala, sorri, anda e se alimenta. Seu caso é considerado pela equipe como "um milagre". Possível, certamente para os que desejam e lutam pela vida.

"Antes de mais nada, tive fé em Deus"

O acompanhamento da equipe do Programa de Assistência Domiciliar (PAD) do Hospital São José ajudou bastante em sua recuperação, admite Camila Oliveira (nome fictício), portadora de HIV (Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida) e de neurotoxoplasmose. "Mas, antes de tudo, tive fé na ajuda de Deus", ressalta.

Camila enfatiza que toda a sua coragem para enfrentar as fortes dores físicas durante a fisioterapia "veio de cima, do Senhor". Ela lembra, ainda, que antes do tratamento, não conseguia fazer nada sozinha. "Eu mexia só os olhos", cita, explicando que precisava da ajuda de outras pessoas até mesmo para as coisas básicas, como tomar banho e se alimentar. O marido, recorda, queixava-se para a sua família do "fardo que era obrigado a carregar e terminou me deixando".

Mãe de um garoto de 12 anos, Camila ressalva que hoje, com a evolução no tratamento, a vida está muito melhor que há cerca de dois ou três anos. Até o peso melhorou. Com 1metro e 60 centímetros de altura, se na fase mais aguda da doença ficou magérrima, com apenas 45 quilos, atualmente pesa 52 quilos.

"Insisti na fisioterapia porque eu tinha fé e queria voltar a viver", diz, acrescentando que ainda sofre com as limitação no movimento das mãos. Seu sonhos agora, são recuperar todos os seus movimentos plenamente.

Famílias recebem ajuda psicológica

Psicóloga e filha de paciente com metástase internada no César Cals buscam formas de melhor enfrentar a realidade que se aproxima

O suporte emocional ao paciente em estado crítico, sem prognóstico, e ao seu familiar é uma das preocupações fundamentais da Comissão de Cuidado Paliativo do César Cals, assegura a psicóloga Niveamara Cidrac Lima, que integra a CCP do hospital. "Tem-se a ideia de que o tratamento de um paciente é só através de técnicas curativas, mas não é assim", diz ela, adiantando que seu trabalho é preparar o doente para enfrentar a realidade da melhor forma possível.

A psicóloga conta que aplica técnicas de reflexão e de desenvolvimento de um projeto de vida conforme o estado de saúde do paciente. "Não é fácil propiciar conforto emocional a alguém nesse momento, embora todos nós saibamos da finitude da vida", cita, lembrando que a grande maioria das pessoas acompanhadas demonstram preocupação com os entes queridos. "Elas desejam saber como ficarão os filhos, o marido, a esposa e até as coisas de casa. Enfim, às vezes, essa preocupação com o outro é maior do que consigo", frisa, adiantando que muitos pacientes demonstram ter a ideia real do seu quadro de saúde até mesmo através do olhar.

Preparar os familiares para a morte de um enfermo tem sido outra missão dessa profissional. "Há momentos em que eles querem apenas um ombro para chorar". Lembra que no começo da gravidade do caso surge a revolta, que depois cede à realidade.

Cristina Lima de Goes, residente no Bom Sucesso, que acompanha a mãe, de 89 anos, com câncer e internada no César Cals, relata que a psicóloga a ajudou a enfrentar o problema. "Minha mãe está no fim, eu sei. Estou tentando aceitar", diz.

MOZARLY ALMEIDA
 
REPÓRTER


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