No Pirambu, um projeto de iniciativa dos próprios moradores leva internet gratuita para uma rua inteira
O mundo está cada vez mais conectado. Para agradar os clientes, restaurantes, hotéis e shoppings disponibilizam, gratuitamente, acesso à rede. Em alguns espaços públicos, como praças e pontos de ônibus, a população também pode se conectar através da rede Wi-Fi. O problema é que, para maior parte da população, principalmente a mais pobre, que vive em bairros periféricos da cidade, poder se conectar a qualquer hora do dia ainda é um sonho. Um artigo de luxo longe da realidade da maioria.
No Pirambu, por exemplo, que está entre os dez bairros mais pobres da Capital, com renda média pessoal de R$ 340,36, conforme estudo elaborado pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica (Ipece), um projeto de iniciativa da própria população - o Pirambu On-Line Expansão - está fazendo a diferença. Num raio de 1 km, que abrange seis quarteirões da Rua Dom Quintino e a Praça do Chafariz, moradores podem acessar, a qualquer hora do dia, a internet. E o melhor: gratuitamente.
O projeto deu tão certo que atrai moradores de toda a redondeza. E consegue o mais difícil: tirar jovens ociosos do meio das ruas e do mundo das drogas. Seja para fazer um trabalho escolar ou falar com amigos nas redes sociais, o certo é que os adolescentes aprovaram a iniciativa. Alguns pais já começaram, inclusive, a reclamar. Com acesso disponível até nas casas, alguns jovens vão madrugada adentro navegando na web.
Queiroz Barbosa, idealizador do projeto, conta que muitas vezes os pais ligam de madrugada pedindo que "desligue" a internet, porque seus filhos não querem dormir. O estudante Felipe Ferreira, 17 anos, é um desses viciados em internet. Como a antena de acesso à rede fica em cima de sua casa, ele pode se conectar de casa, a qualquer hora do dia. "A hora passa e a gente nem percebe", justifica. Antes do projeto, Ferreira conta que só acessava internet da lan house.
Satisfeito com a iniciativa, o jovem destaca que o Pirambu é um bairro marginalizado, onde nem todos tem a chance de acessar internet. "Até tem lan house, mas o pessoal não tem condições de pagar", diz. Por causa do Pirambu On-Line, muitos moradores vão para a Rua Dom Quintino. Quem passa por lá facilmente identifica jovens acessando a rede na praça ou na calçada.
O projeto, pioneiro na periferia de Fortaleza, começou com uma lan house. Mas, aos poucos, os computadores foram apresentando defeito, então resolveram instalar um roteador em cima da casa de um morador. E, assim, surgiu o Pirambu On-Line. Mesmo sendo uma iniciativa da própria população, o projeto contava com apoio financeiro da gestão anterior. Com a mudança do poder municipal, os moradores temem não ter condições de arcar com os custos das sete antenas instaladas ao longo da rua.
Prefeitura
A assessoria de comunicação do prefeito Roberto Cláudio informa que a administração está em uma fase de diagnóstico de todas as ações, projetos e obras da Prefeitura. Como ainda não sabe o que existe, não tem como se pronunciar sobre o assunto.
A expectativa é de que, no fim de janeiro e início de fevereiro, seja divulgada a plataforma de ações a serem tomadas. Mesmo deixando claro que a gestão atual não é continuidade da anterior, a assessoria garante que algumas ações serão continuadas, mas esclarece que ainda será avaliado o que pode melhorar.
PROTAGONISTA
A rede mundial como ferramenta de inclusão
A estudante Rebeca Késsia do Nascimento, 13 anos, mora na Rua Dom Quintino, no Pirambu, mas, na sua casa, a internet Wi-Fi não pega. Sempre que precisa, vai para o Pirambu On-Line fazer trabalhos da escola e falar com amigos, nas redes sociais. A Praça do Chafariz é outro lugar de onde sempre acessa a rede. Como não tem computador, consegue celulares e notebooks de amigos.
OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Políticas públicas precisam ser multiplicadas
A internet faz parte do dia a dia da sociedade moderna. Estar fora dela, ou apenas utilizá-la de forma esporádica, coloca o indivíduo à margem de muitas oportunidades e da própria dinâmica da sociedade. Infelizmente, o número de excluídos no Ceará ainda é muito alto. Se formos avaliar a qualidade da utilização, o quadro piora. As políticas públicas precisam ser multiplicadas e ao mesmo tempo focadas, não apenas incluindo (ensinando a usar), mas agregando qualidade a esse uso. Sou contra o simples ensinar a acessar a internet e depois deixar o aprendiz à deriva. Esse é um ponto (aprender a usar). O outro é aonde acessar. Daí a necessidade do acesso gratuito.
Cada vez mais há espaços fornecendo esse serviço: hotéis, bares, cafés, shoppings, academias, etc. A internet passa a ser um "agrado" ao cliente. Mas não apenas em espaço privado deve se ter acesso. Os espaços públicos também precisam ser dotados dessa facilidade. Há em Fortaleza e em cidades do estado, como Tauá, praças com acesso aberto. Infelizmente são exceção, não regra. O Governo do Ceará está implantando o cinturão digital - uma excelente iniciativa -, levando banda larga a maioria do Estado. É preciso que os prefeitos façam sua parte e, a partir do ponto de presença do cinturão, difundam o acesso e "iluminem" (termo designado para designar o acesso intensivo) todo o município.
Está vindo aí o serviço 4G, com velocidade acima de 10 MB, permitindo o uso de novos serviços da internet. Mas pela expectativa de preço que as operadoras devem cobrar, além da obrigatoriedade da compra de aparelhos celulares mais caros, o serviço será restrito a um número limitado da população. Daí a necessidade de políticas públicas para equilibrar esse "subproduto" da internet - acesso diferenciado por classe social.
Mauro PequenoDiretor do Instituto Universidade Virtual - UFC
Wi-Fi atrai população para praças da Capital
Passeio Público, Praça do Ferreira, Praça da Estação, Praça Coração de Jesus, Parque da Criança e Praça José de Alencar são espaços do Centro onde é disponibilizada, gratuitamente para a população, internet pela rede Wi-Fi. O agente de registro Tiago Fernandes, 24 anos, trabalha no Centro e todos os dias almoça no Passeio Público, onde pode acessar, livremente, a internet.
"É perfeito. Eu, que sou viciado em internet, posso almoçar e ficar navegando", diz. O agente sugere que o mesmo seja feito em todas as praças da cidade. Rosana Lins, proprietária do Café Passeio, comenta que a internet acaba atraindo muitas pessoas para a praça. "O Passeio Público já é um espaço bastante convidativo, com a internet sem fio ele se torna ainda mais. Muitas reuniões são realizadas aqui. Os turistas também adoram. Eles acessam muito", ressalta.
Prova de que a medida foi aprovada é que basta dar um problema técnico no acesso à rede para as reclamações começarem. "A internet aqui ganhou credibilidade, dificilmente falha", frisa. Tem também a presença da Guarda Municipal, que dá segurança aos frequentadores.
Janaina Oleinik, especialista em computação móvel, comenta que a internet é uma poderosa ferramenta de inclusão. Mas alerta que ela só cumprirá realmente o seu papel com iniciativas combinadas. Além do serviço de conexão, a especialista destaca que é importante que seja oferecida a "educação digital". Acrescenta que ela deve melhorar a vida da população urbana, com informações sobre serviços básicos, como horários e trajeto de transporte público, agendamentos de consultas médicas e outros serviços de saúde.
Projeto
Inaugurado em novembro de 2011, o Cinturão Digital - uma infraestrutura de fibra ótica que passa por 92 municípios do Interior -, leva conexão a 53 cidades com mais de 50 mil habitantes.
O projeto foi criado pelo Governo do Estado com intuito de levar conectividade aos pontos de interesse do governo: escolas, delegacias, hospitais e postos de saúde. São cerca de 700 pontos em todo o Estado. Em 2013, o governo estadual firmou parceria com o município para que todos os pontos da Prefeitura sejam conectados.
LUANA LIMA
REPÓRTER
Fonte: Diário do Nordeste.
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