Silvio e Marcia, na faixa dos 60 anos, tiveram a filha,
Marcinha, por meio de uma FIV.
Aos 61 anos, e depois de criar os filhos, André, 38, e Isabela, 34,
Marcia tem trocado com satisfação as fraldas da filha Marcinha. A caçula
nasceu em 20 de agosto de 2012 e é também a maior alegria de seu pai,
Silvio, 63.
O nascimento da menina aconteceu em Campinas (SP), onde mora o casal,
e, durante toda a gravidez, a mãe foi acompanhada por uma equipe
multidisciplinar.
Para engravidar, Marcia se submeteu a uma fertilização in vitro (FIV),
técnica de reprodução assistida de alta complexidade. Cada tentativa
custa entre R$ 12 mil e R$ 18 mil, sendo normal precisar de mais de uma
até a concretização da gravidez.
O procedimento é também chamado de "bebê de proveta", porque a
fecundação do óvulo pelo espermatozoide ocorre fora do corpo, em
laboratório. No caso de Marcia, a FIV foi realizada utilizando o sêmen
de Silvio e os óvulos de uma doadora, com características físicas
semelhantes às suas, em um processo chamado de ovodoação.
"Estou de acordo com a fertilização após os 50, 55 anos, desde que os
fatores de riscos clínicos e psicológicos sejam estritamente avaliados e
que o casal esteja totalmente ciente das consequências", afirma o
ginecologista e obstetra Julio Voget, que tem especialização em
reprodução humana e foi um dos médicos responsáveis pela fertilização de
Marcia.
Os exames da gestante
De acordo com o especialista, os casais são orientados a consultar um
psicólogo e a discutir aspectos relacionados com a futura gravidez, como
impacto na vida, desejo real e riscos.
Hoje não existe limite máximo de idade para que uma mulher seja
submetida à reprodução assistida, mas o Conselho Federal de Medicina
deve atualizar a resolução que trata do assunto no país. Uma das
principais propostas é a de criar um teto entre 50 e 55 anos.
Riscos para a mãe e o bebê
Para a SBRA (Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida), mulheres acima de 50 anos não deveriam ser candidatas à reprodução assistida em função dos riscos maternos e fetais.
A idade acima de 35 anos é apontada por si só como um fator de risco
para a gestação, segundo a cartilha "Gestação de Alto Risco – Manual
Técnico", do Ministério da Saúde, e pode implicar em sérias
consequências para a saúde da mãe e do bebê.
A chamada gestação tardia aumenta a chance de a mulher ter parto
prematuro, diabetes e hipertensão, sofrer um aborto, ter hemorragia
uterina no pós-parto imediato (devido a menor capacidade de contração do
órgão) e de a criança nascer com Síndrome de Down, entre outros
problemas.
"Para o bebê, citaria, principalmente, as sequelas decorrentes do
nascimento prematuro e as complicações associadas ao baixo peso", afirma
o médico Gilberto da Costa Freitas, especialista em reprodução
assistida pelo King's College, de Londres, e responsável pelo setor de
reprodução humana do Hospital Pérola Byington, em São Paulo.
Segundo Newton Busso, presidente da comissão nacional especializada em
reprodução humana da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de
Ginecologia e Obstetrícia), como não existe um protocolo para o
pré-natal da gestante acima de 35 anos, cabe ao médico a definição da
frequência de suas consultas e quais exames e cuidados ela deve adotar.
"Antes de decidir engravidar, é sempre importante uma avaliação do
estado de saúde com um ginecologista e/ou clínico geral e ter
consciência de que a gestação significa uma sobrecarga para o organismo
da mulher", declara o especialista.
Acima dos 60, Busso diz não achar correto submeter uma mulher à
fertilização. "Os filhos precisam de uma mãe que os ampare e os eduque
até a vida adulta."
A gravidez semana a semana
História bem-sucedida
Marcia decidiu tentar engravidar aos 60 depois de fazer uma batelada de
exames laboratoriais e de imagem. "Minha genética é excelente. Sempre
fiz atividades físicas e tenho uma alimentação saudável", afirma. Apesar
do bom estado de saúde, sua gravidez foi cercada de cuidados extras.
Em pouco mais de um ano, ela se submeteu a duas tentativas de
inseminação. A gravidez foi confirmada em janeiro de 2012, na segunda
inseminação. Desde que soube da novidade, passou a ser acompanhada
rigorosamente. "Realizava o exame de glicemia cinco vezes ao dia, além
de medir a pressão arterial todo dia", diz ela detalhando um
procedimento que não é usual para todas as grávidas.
Marcia afirma que, apesar de todos os cuidados de uma gestação de
risco, sua gravidez transcorreu sem enjoos ou qualquer intercorrência.
Sua filha nasceu com 38 semanas –um bebê é considerado a termo, ou
pronto para nascer, a partir de 37 semanas completas– por meio de uma
cesárea. O nascimento ocorreu em uma segunda e na quinta, da mesma
semana, mãe e filha deixaram a maternidade.
"A cesárea é o procedimento que se aplica na maior parte das gestações
de feto valorizado (com dificuldade de concepção). Não havia segurança
para que uma paciente dessa idade pudesse ter parto normal", diz o
ginecologista Fernando Brandão, outro especialista que acompanhou
Marcia. Segundo ele, cinco horas após o parto, Marcia já amamentava a
filha.
Uma vida de cuidados permitiu que Marcia engravidasse e tivesse um bebê
saudável, além de um histórico familiar intensamente investigado pelos
médicos. "Hoje é muito difícil decidir se uma mulher pode ou não
realizar uma fertilização in vitro estritamente pela idade, porque temos
exemplos como esse", diz Voget. Apesar da afirmação, não há dados
disponíveis que permitam comparar casos bem e mal-sucedidos de gestações
e nascimentos nessa faixa etária.
Para o especialista em medicina fetal Sang Choon Cha, livre-docente
pela Faculdade de Medicina da USP e diretor da Embryo-Fetus - Centro de
Reprodução Humana e Medicina Fetal, em São Paulo, as condições de risco
de uma gravidez tardia podem ser muito bem controladas ou prevenidas.
"Mesmo as pacientes jovens podem apresentar essas complicações, embora
em menor grau", declara Cha. O médico foi o responsável pela
fertilização de Antonia Leticia Asti, 61, que deu à luz um casal de
gêmeos em 23 de outubro, em São Vicente (SP). Os bebês nasceram prematuros, com 31 semanas de gestação, por causa de uma hipertensão severa da mãe, e só tiveram alta do hospital em dezembro.
Fertilidade
"Após os 40 anos, a chance de engravidar cai drasticamente e, depois
dos 45, é praticamente zero", afirma Adelino Amaral Silva, presidente da
SBRA.
De acordo com Karla Zacharias, especialista em reprodução assistida e
coordenadora no Grupo Huntington de Medicina Reprodutiva, é na faixa dos
40 que os óvulos, que nascem com a mulher, entram em uma fase rápida de
envelhecimento, preparando-se para a menopausa, que na mulher
brasileira ocorre por volta dos 50. "O número de óvulos também reduz
progressivamente. Por isso meu conselho é que a mulher tente engravidar
antes dos 40 e, se não houver condições favoráveis para isso, que pense
em congelar seus óvulos."
Se o caminho para a gravidez for a fertilização, a mulher não pode
achar que está com a gravidez garantida. "O Centro de Controle de
Doenças dos Estados Unidos mostra que, com a fertilização de seus
próprios óvulos, uma mulher aos 40 terá 26% de chances de engravidar e
apenas 18,1% que essa gravidez evolua, em comparação com resultados que
superam os 40% em mulheres até 35 anos", afirma Freitas.
Como é realizada a fertilização in vitro
Para a realização do procedimento da fertilização in vitro, é feita
uma indução da ovulação com medicamentos e um monitoramento do
crescimento dos folículos ovarianos por meio da ultrassonografia
transvaginal.
No momento apropriado, os folículos são coletados por meio da vagina com uma sonda apropriada, guiada com o auxílio de ultrassom de alta frequência.
Os óvulos maduros e os espermatozoides são preparados e é feita a inseminação em laboratório.
Após a fertilização e a cultura do embrião, é feita uma transferência do mesmo para o útero.
"A transferência é realizada com um pequeno cateter que carrega o embrião e é um dos momentos mais delicados para obter um resultado positivo", afirma Julio Voget.
No momento apropriado, os folículos são coletados por meio da vagina com uma sonda apropriada, guiada com o auxílio de ultrassom de alta frequência.
Os óvulos maduros e os espermatozoides são preparados e é feita a inseminação em laboratório.
Após a fertilização e a cultura do embrião, é feita uma transferência do mesmo para o útero.
"A transferência é realizada com um pequeno cateter que carrega o embrião e é um dos momentos mais delicados para obter um resultado positivo", afirma Julio Voget.
Fonte: UOL
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