Para
lutar, literalmente, por seus sonhos, mulheres cearenses se destacam em
competições nacionais de jiu-jítsu, karatê, luta olímpica e taekwondo
Elas usam batom, sombra e rímel. São adeptas do salto alto. E amam, acima de tudo, lutar. Semelhanças capazes de unir e mostrar a força e a determinação de mulheres que, por muitas vezes, preferem quimono em vez de vestido e entrar no tatame no lugar de, simplesmente, ir ao salão de beleza.
Cearenses que com aptidões e esforços provam ser capazes de vencer batalhas, dentre elas, aquela contra o preconceito. Para praticar um esporte considerado típico do público masculino, as mulheres superam desafios.
A idade pouco importa. A vontade de vencer guia crianças, jovens e adultas a continuar aplicando técnicas e golpes no presente para alcançar um futuro mais promissor e também respeitado.
Uma dessas lutadoras é Rachel Azevedo, 28 anos. A formação em Direito é acompanhada por títulos na carreira de atleta iniciada em 2007. O mais importante deles foi conquistado no ano passado: bicampeã mundial de jiu-jítsu. Os anos anteriores também foram de vitórias: campeã Pan-americana, Sul-americana e Brasileira.
Para entrar no tatame, contudo, não bastam apenas os treinamentos intensos. Segundo Rachel, a autoestima precisa estar bem, o cabelo, penteado e as unhas, pintadas. Talvez, quem sabe, essas sejam as principais diferenças quando se fala da mulher lutadora para o homem atleta da mesma modalidade.
“Sou a única menina da família. Tenho outros dois irmãos. O mais velho me incentivou a começar no esporte. No início, foi bastante difícil. Mas, hoje, todos me respeitam. Sou até professora do meu irmão mais novo”, comenta Rachel.
Segundo a atleta, as dificuldades se tornam mais complexas diante
dos pensamentos machistas que ainda circulam tanto no meio esportista
quanto no social: “O esporte em si já nos obriga a ter uma rotina
diferente, com muitas regras. A luta feminina ainda é um tabu. Temos de
fazer cara de que é natural mulher gostar de luta, quando, na verdade,
não é bem a ssim”.
As mudanças no cuidar também se tornam necessárias. A ideia é de
que, mesmo no tatame, a vaidade tenha espaço e a beleza ressaltada.
Porém, Rachel Azevedo adverte que as variações no porte físico, por exemplo, são muito frequentes e, às vezes, difíceis de serem entendidas por outras pessoas que não conhecem os efeitos dessa prática esportiva no corpo feminino.
Quando o assunto é moda, Rachel pendura, literalmente, o quimono no cabide e cede lugar aos shorts e vestidos, em especial, os pouco decotados que não a exponham tanto. “Tenho muita atenção com o meu corpo. Até me acho mais bonita ao me sentir mais atleta”. Tudo é uma questão de estilo.
Porém, Rachel Azevedo adverte que as variações no porte físico, por exemplo, são muito frequentes e, às vezes, difíceis de serem entendidas por outras pessoas que não conhecem os efeitos dessa prática esportiva no corpo feminino.
Quando o assunto é moda, Rachel pendura, literalmente, o quimono no cabide e cede lugar aos shorts e vestidos, em especial, os pouco decotados que não a exponham tanto. “Tenho muita atenção com o meu corpo. Até me acho mais bonita ao me sentir mais atleta”. Tudo é uma questão de estilo.
Sensibilidade
O desejo de aliar perseverança e feminilidade no tatame nem sempre
pode ser realizado. A campeã cearense Cristina Araújo de Sousa, 21 anos,
por exemplo, teve de abandonar as unhas longas há cerca de um ano. Para
praticar um golpe seguro e correto, as atlet as precisam mantê-las
pequenas.
No primeiro contato, as técnicas da luta olímpica assustam. O objetivo: colocar as costas do adversário no chão e segurá-lo por três segundos. Parece um esforço violento, masculino demais. Contudo, algumas atletas, como prova Cristina, revelam o contrário. Elas começam a mostrar que as técnicas também podem ter um toque feminino, sem comprometer os resultados. Aliás, elas levam até a vitórias inesperadas.
No primeiro contato, as técnicas da luta olímpica assustam. O objetivo: colocar as costas do adversário no chão e segurá-lo por três segundos. Parece um esforço violento, masculino demais. Contudo, algumas atletas, como prova Cristina, revelam o contrário. Elas começam a mostrar que as técnicas também podem ter um toque feminino, sem comprometer os resultados. Aliás, elas levam até a vitórias inesperadas.
Cristina é uma das que está fazendo história. Estudante de Educação
Física, conquistou, em 2011, além do primeiro lugar no Campeonato
Cearense de Luta Olímpica, categoria 67Kg, a terceira posição no
Campeonato Brasileiro, em 2012. Neste mesmo ano, ela foi ouro no
Brasileiro 1ª Região. Devido ao desempenho, a atleta ganhou a chance de
concorrer, neste mês, a uma vaga na Seleção Brasileira de Luta Olímpica.
“Nós, mulheres, temos nossas diferenças e limites. A fisiologia não é
igual à do homem . Somos mais sensíveis. Mas nem por isso somos
inferiores”.
Para aperfeiçoar as habilidades, Cristina treina com homens. A possibilidade permite aprimorar velocidade, força e agilidade. “Muitas vezes, eles não admitem perder para mulher. Alguns até soltam piadas do tipo: ‘deixa de ser mulherzinha’, que mexem com o psicológico. Mas com as vitórias mostramos que somos capazes de nos superar”.
Do talento e esforço, surgem o respeito e a compreensão. Prova disso, cita Cristina, são as atitudes dos companheiros de treino quando ela está naqueles dias: “Eu nem preciso avisar, eles já me conhecem. Fico muito mais sensível. Então, pegam mais leve. Respeitam mesmo. Antes de lutar, era agressiva no período de Tensão Pré-Mestrual, a famosa TPM. Hoje, sou uma pessoa bem tranquila”.
Descoberta
Para aperfeiçoar as habilidades, Cristina treina com homens. A possibilidade permite aprimorar velocidade, força e agilidade. “Muitas vezes, eles não admitem perder para mulher. Alguns até soltam piadas do tipo: ‘deixa de ser mulherzinha’, que mexem com o psicológico. Mas com as vitórias mostramos que somos capazes de nos superar”.
Do talento e esforço, surgem o respeito e a compreensão. Prova disso, cita Cristina, são as atitudes dos companheiros de treino quando ela está naqueles dias: “Eu nem preciso avisar, eles já me conhecem. Fico muito mais sensível. Então, pegam mais leve. Respeitam mesmo. Antes de lutar, era agressiva no período de Tensão Pré-Mestrual, a famosa TPM. Hoje, sou uma pessoa bem tranquila”.
Descoberta
Companheira de treino de Cristina, Hadassa Duarte, 18 anos, também
recebeu incentivo masculino para iniciar na luta olímpica. A brincadeir a
com um amigo do judô a revelou: “Fazia capoeira, e ele me chamou para
lutar no asfalto. Gostei e não parei mais”.
A atleta coleciona prêmios. Aos 14 anos, foi vice-campeã brasileira. Em 2012, conquistou bronze no Campeonato Brasileiro, na categoria adulto, e ouro no Campeonato Brasileiro 1ª Região, categoria até 55 Kg. No currículo, Hadassa ainda acumula o segundo lugar na Copa do Brasil, em 2011, e no Campeonato Brasileiro, em 2009.
Para ser dona de tantas medalhas, a jovem teve não só de vencer as adversárias, como o preconceito de amigos e familiares. “No início, minha mãe não aceitou muito bem. Depois, foi vendo os resultados e me apoiou. Já ouvi muita coisa, mas ser lutadora só me ajuda. Muitas mulheres se sentem fracas, eu não”.
Ao falar sobre os cuidados com o corpo, Hadassa confessa: “Não sou
vaidosa. Minha preocupação é com a dieta, em me alimentar bem para ficar
com o físico em dia”. Dos sonhos, ela destaca a i da aos Jogos
Olímpicos, em 2016, no Rio de Janeiro, e tornar-se professora de
Educação Física. “Acredito em mim. Me esforço para conseguir tudo
isso”, reflete a lutadora que chega a treinar de segunda a segunda.
“Faço exercícios até nas dunas da Praia da Sabiaguaba, em Fortaleza”.
Promessa
Promessa
Quem também se sente mais forte praticando esporte é a adolescente
Yandra Dias. De um projeto social, nasceu a principal destaque, hoje, do
taekwondo cearense. A menina de sorriso doce, que coloca rímel azul,
faz um perfeito rabo de cavalo no cabelo e passa brilho nos lábios, é a
quarta colocada no ranking nacional do esporte - modalidade até 49 Kg.
Com 15 anos, Yandra é dona de importantes títulos: vice-campeã
brasileira (2012), bronze no Brazil Open (2012), ouro no Campeonato
Cearense (2010) e no Circuito Nordeste (2010).
“Não imaginava lutar. Era algo estranho para mim, que fazia apenas
futebol. Mas, hoje, me sinto bem, mais poderosa quando estou com o
dobok (roupa similar ao quimono, composta por protetores)”.
Fábio Almeida, o Ronim, treinador de Yandra e presidente da
Federação de Taekwondo do Ceará, afirma que as mulheres se destacam,
cada vez mais, no campo das lutas. O que se deve, principalmente, à
disciplina e à dedicação delas.
“Há dois anos, Yandra é o destaque do esporte entre meninas e
meninos no Ceará. É movida pela superação. Um exemplo da força
feminina”, avalia o treinador.
Os próximos objetivos da atleta são tentar vaga, neste mês, na seleção brasileira juvenil e garantir a ida aos Jogos Olímpicos. Para tal, a rotina é preenchida com treinos durante o decorrer da semana.
Os próximos objetivos da atleta são tentar vaga, neste mês, na seleção brasileira juvenil e garantir a ida aos Jogos Olímpicos. Para tal, a rotina é preenchida com treinos durante o decorrer da semana.
Superação
A vida de outra adolescente, Tatielle Soares, 14 anos, também é
marcada por muitas responsabilidades, entre elas, o comprometimento com o
karatê, esporte que já lhe rendeu o título de campeã mundial em kumite
(modalidade da luta).
Enfrentando resistência de parentes e amigos, a menina se tornou
uma das promessas da modalidade no Ceará. O pai, Francisco Soares, é um
dos principais incentivadores. É ele quem a leva aos treinos, três vezes
por semana.
Para competir, o ritual conta com maquiagem, unhas pintadas e
cabelo bem arrumado com brilho e franja de lado. O visual, que
casualmente seria composto apenas pelo quimono, ganha toques femininos
com fitas e fivelas no cabelo. “Amo rosa. Sempre que vou lutar, uso
algum acessório e nunca esqueço de um batom básico”, conta Tatielle,
vice-campeã cearense e Norte/Nordeste em kumite, no ano passado.
Modelo de determinação para as atletas mais novas, como Tatielle e
a filha Amanda, 23 anos, Lenilda Moreira, 47, é uma das mulheres do
karatê que mais acumula títulos no Ceará: dez campeonatos brasileiros,
11 cearenses e três mundiais. A atleta se define como uma das karatecas
mais bem graduadas do País, ostentando a conquista do quinto Dan ,
classificação que distingue os níveis dos praticantes do esporte.
Na caminhada para as vitórias, repleta de desafios, Lenilda revela
que muitos foram as falas e gestos preconceituosos: “No meu primeiro
treino, levei dois socos de um homem que quase não me levanto. Treinei e
mostrei que mulher também sabe bater. Anos depois, apliquei uma técnica
neste mesmo rapaz e o deixei de joelhos”.
A fragilidade e a sensação de insegurança fundamentaram a decisão de praticar karatê, após ser vítima de assalto. “Comecei tarde no esporte, aos 22 anos. Era casada e tinha dois filhos pequenos. E ouvi muito que mulher no karatê não era mulher de verdade”, lembra.
A fragilidade e a sensação de insegurança fundamentaram a decisão de praticar karatê, após ser vítima de assalto. “Comecei tarde no esporte, aos 22 anos. Era casada e tinha dois filhos pequenos. E ouvi muito que mulher no karatê não era mulher de verdade”, lembra.
Ela explica que, aos poucos e com muito esforço, foi alcançando o
respeito que merecia. Para a experiente karateca, o esporte possibilita
que as atletas se fortaleçam mais como mulheres, sintam-se seguras e
capazes. “Consigo deixar de joelho qualquer homem. A luta não impede que
se te nha família, trabalhe ou estude. Acho que até atraímos mais os
olhares masculinos, pois temos uma preparação física diferenciada”, fala
sorrindo.
Os ensinamentos de Lenilda motivaram a filha Amanda. Com apenas 4
anos, a menina deu os primeiros golpes de karatê. Hoje, faixa preta,
apresenta um currículo de muitas vitórias. Dentre as principais: ouro no
Pan-americano (2003) e Sul-americano (2003) e segundo lugar no
Brasileiro (2009) e no Norte/Nordeste (2010).
Hábeis
Hábeis
O karatê cearense também conta com outra campeã de peso. A meiga
Anna Thais Teixeira, 14 anos, é, hoje, uma das atletas de maior
visibilidade no esporte. A faixa preta que contrasta com a cor branca do
quimono há quatro anos é o símbolo da persistência, dedicação e
competência da adolescente. Ela divide o tempo entre o tatame, escola,
amigos e família. Sem falar do namorado, João Pedro, também karateca,
faixa marrom.
A competência de Thais é provada com os títulos. No Campeonato
Mundial, disputado em 2012, foram dois ouro, na categoria
infanto-juvenil. No mesmo ano, adicionou ao portfolio o primeiro lugar
no Cearense (kata e kumite), nas Copas de Kumite disputadas no Ceará e
quatro ouros no Campeonato Norte/Nordeste de Karatê.
Thais coleciona ainda nove troféus de melhor karateca conferidos pela Federação Cearense de Karatê. “Treino três vezes por semana. Na época de campeonato, tenho que ir à academia todos os dias”. O esporte faz parte da rotina da garota desde os quatro anos. “O karatê é a minha vida. Mas quero casar e ter filhos. Adoro cantar e tocar violão”, revela a atleta.
Thais coleciona ainda nove troféus de melhor karateca conferidos pela Federação Cearense de Karatê. “Treino três vezes por semana. Na época de campeonato, tenho que ir à academia todos os dias”. O esporte faz parte da rotina da garota desde os quatro anos. “O karatê é a minha vida. Mas quero casar e ter filhos. Adoro cantar e tocar violão”, revela a atleta.
Para Anna Thais, uma lutadora conquista sucesso por meio da
disciplina. “Observo que, nas academias, as mulheres estão dominando.
Elas passam a se identificar com o karatê pelos benefícios que ele pode
trazer como emagrecer e aprender a se defender”, avalia.
Vencedora
Amiga, quase irmã de Thais, Brena Sunamita Soares é outro talento. A
menina que cursa a 6ª série e tem 12 anos já é campeã mundial de karatê
na categoria infantil (2012) e ouro nos campeonatos Norte/Nordeste
(2012) e Cearense (2012).
Brena Soares, 12, e Anna Thais, 14, são duas promessas do karatê cearense. Ambas já são campeãs mundiais
Para conquistar tudo isso com tão pouca idade, suas palavras-chaves são treinamento e concentração. “Até minha mãe foi contra quando comecei a treinar. Costumava dizer que era muito violento para menina. Hoje, ela pensa diferente, porque não desisti e conquistei medalhas importantes”, descreve.
Incentivo
As histórias de perseverança e vitórias como as dessas atletas
podem ser contadas por meio de uma nova ferramenta. Lançado em agosto
passado, o blog Vai Encarar, do Diário do Nordeste, mostra o desempenho
dos praticantes das artes marciais e os benefícios do esporte. A versão
impressa da página é publicada todas as quintas-feiras no caderno
Jogada.
Faixa preta em jiu-jítsu e uma das jornalistas responsáveis pelo
blog, Thays Lavor informa que as pesquisas mensais da publicação mostram
equilíbrio entre homens e mulheres no interesse pelo assunto. “Os
resultados afastam o tabu de que só os homens gostam de luta. Em 15
anos, o público feminino dobrou dentro dos tatames e em campeonatos”,
revela a jornalista.
Segundo Thays, o envolvimento delas com as artes marciais prova
que, aos poucos, o preconceito vem sendo quebrado, atitude que reflete o
compromisso das futuras gerações femininas. “A mulher que está na luta e
se dispõe a competir não enxerga o impossível”, conclui.
Fonte: Diário do Nordeste.
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