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domingo, 13 de janeiro de 2013

Domínio feminino

Para lutar, literalmente, por seus sonhos, mulheres cearenses se destacam em competições nacionais de jiu-jítsu, karatê, luta olímpica e taekwondo

Elas usam batom, sombra e rímel. São adeptas do salto alto. E amam, acima de tudo, lutar. Semelhanças capazes de unir e mostrar a força e a determinação de mulheres que, por muitas  vezes, preferem quimono em vez de vestido e entrar no tatame no lugar de, simplesmente, ir ao salão de beleza.

Competência: Rachel Azevedo é hoje a principal referência do jiu-jítsu feminino do Estado

Cearenses que com aptidões e esforços provam ser capazes de vencer batalhas, dentre elas, aquela contra o preconceito. Para praticar um esporte considerado típico do público masculino, as mulheres superam desafios.
A idade pouco importa. A vontade de vencer guia crianças, jovens e adultas a continuar aplicando técnicas e golpes no presente para alcançar um futuro mais promissor e também respeitado.

Uma dessas lutadoras é Rachel Azevedo, 28 anos. A formação em Direito é acompanhada por títulos na carreira de atleta iniciada em 2007. O mais importante deles foi conquistado no ano passado: bicampeã mundial de jiu-jítsu. Os anos anteriores também foram de vitórias: campeã Pan-americana, Sul-americana e Brasileira. 

Para entrar no tatame, contudo, não bastam apenas os treinamentos intensos. Segundo Rachel, a autoestima precisa estar bem, o cabelo, penteado e as unhas, pintadas. Talvez, quem sabe, essas sejam as principais diferenças quando se fala da mulher lutadora para o homem atleta da mesma modalidade.

“Sou a única menina da família. Tenho outros dois irmãos. O mais velho me incentivou a começar no esporte. No início, foi bastante difícil. Mas, hoje, todos me respeitam. Sou até professora do meu irmão mais novo”, comenta Rachel.
 
Segundo a atleta, as dificuldades se tornam mais complexas diante dos pensamentos machistas que ainda circulam tanto no meio esportista quanto no social: “O esporte em si já nos obriga a ter uma rotina diferente, com muitas regras. A luta feminina ainda é um tabu. Temos de fazer cara de que é natural mulher gostar de luta, quando, na verdade, não é bem a ssim”.
 
As mudanças no cuidar também se tornam necessárias. A ideia é de que, mesmo no tatame, a vaidade tenha espaço e a beleza ressaltada.

Porém, Rachel Azevedo adverte que as variações no porte físico, por exemplo, são muito frequentes e, às vezes, difíceis de serem entendidas por outras pessoas que não conhecem os efeitos dessa prática esportiva no corpo feminino.

Quando o assunto é moda, Rachel pendura, literalmente, o quimono no cabide e cede lugar aos shorts e vestidos, em especial, os pouco decotados que não a exponham tanto.  “Tenho muita atenção com o meu corpo. Até me acho mais bonita ao me sentir mais atleta”. Tudo é uma questão de estilo.
 
Sensibilidade


O desejo de aliar perseverança e feminilidade no tatame nem sempre pode ser realizado. A campeã cearense Cristina Araújo de Sousa, 21 anos, por exemplo, teve de abandonar as unhas longas há cerca de um ano. Para praticar um golpe seguro e correto, as atlet as precisam mantê-las pequenas.

No primeiro contato, as técnicas da luta olímpica assustam. O objetivo: colocar as costas do adversário no chão e segurá-lo por três segundos. Parece um esforço violento, masculino demais.  Contudo, algumas atletas, como prova Cristina, revelam o contrário. Elas começam a mostrar que as técnicas também podem ter  um toque feminino, sem comprometer os resultados. Aliás, elas levam até a vitórias inesperadas.
 
Cristina é uma das que está fazendo história. Estudante de Educação Física, conquistou, em 2011, além do primeiro lugar no Campeonato Cearense de Luta Olímpica, categoria 67Kg, a terceira posição no Campeonato Brasileiro, em 2012. Neste mesmo ano, ela foi ouro no Brasileiro 1ª Região. Devido ao desempenho, a atleta ganhou a chance de concorrer, neste mês, a uma vaga na Seleção Brasileira de Luta Olímpica. “Nós, mulheres, temos nossas diferenças e limites. A fisiologia não é igual à do homem . Somos mais sensíveis. Mas nem por isso somos inferiores”.

Para aperfeiçoar as habilidades, Cristina treina com homens. A possibilidade permite aprimorar velocidade, força e agilidade. “Muitas vezes, eles não admitem perder para mulher. Alguns até soltam piadas do tipo: ‘deixa de ser mulherzinha’, que mexem com o psicológico. Mas com as vitórias mostramos que somos capazes de nos superar”.

Do talento e esforço, surgem o respeito e a compreensão. Prova disso, cita Cristina, são as atitudes dos companheiros de treino quando ela está naqueles dias: “Eu nem preciso avisar, eles já me conhecem. Fico muito mais sensível. Então, pegam mais leve. Respeitam mesmo. Antes de lutar, era agressiva no período de Tensão Pré-Mestrual, a famosa TPM. Hoje, sou uma pessoa bem tranquila”.

Descoberta


Companheira de treino de Cristina, Hadassa Duarte, 18 anos, também recebeu incentivo masculino para iniciar na luta olímpica. A brincadeir a com um amigo do judô a revelou: “Fazia capoeira, e ele me chamou para lutar no  asfalto. Gostei e não parei mais”.

"Ser lutadora só me ajuda. Muitas mulheres se sentem fracas, eu não"- Hadassa Duarte, 18 anos, Vice-campeã na Copa do Brasil (2011)

A atleta coleciona prêmios. Aos 14 anos, foi vice-campeã brasileira. Em 2012, conquistou bronze no Campeonato Brasileiro, na categoria adulto, e ouro no Campeonato Brasileiro 1ª Região, categoria até 55 Kg. No currículo, Hadassa ainda acumula o segundo lugar na Copa do Brasil, em 2011, e no Campeonato Brasileiro, em 2009.

Para ser dona de tantas medalhas, a jovem teve não só de vencer as adversárias, como o preconceito de amigos e familiares. “No início, minha mãe não aceitou muito bem. Depois, foi vendo os resultados e me apoiou. Já ouvi muita coisa, mas ser lutadora só me ajuda. Muitas mulheres se sentem fracas, eu não”.
 
Ao falar sobre os cuidados com o corpo, Hadassa confessa: “Não sou vaidosa. Minha preocupação é com a dieta, em me alimentar bem para ficar com o físico em dia”. Dos sonhos, ela destaca a i da aos Jogos Olímpicos, em 2016, no Rio de Janeiro, e tornar-se professora de Educação Física. “Acredito em mim. Me esforço  para conseguir tudo isso”, reflete a lutadora que chega a treinar de segunda a segunda. “Faço exercícios até nas dunas da Praia da Sabiaguaba, em Fortaleza”.

Promessa 
 
Quem também se sente mais forte praticando esporte é a adolescente Yandra Dias. De um projeto social, nasceu a principal destaque, hoje, do taekwondo cearense. A menina de sorriso doce, que coloca rímel azul, faz um perfeito rabo de cavalo no cabelo e passa brilho nos lábios, é a quarta colocada no ranking nacional do esporte - modalidade até 49 Kg. Com 15 anos, Yandra é dona de importantes títulos: vice-campeã brasileira (2012), bronze no Brazil Open (2012), ouro no Campeonato Cearense (2010) e no Circuito Nordeste (2010).

Yandra Dias, 15 anos, é destaque no taekwondo. A atleta cearense tenta vaga na Seleção Brasileira e nos Jogos Olímpicos de 2016

“Não imaginava lutar. Era algo estranho para mim, que fazia apenas futebol. Mas, hoje, me sinto bem, mais poderosa quando estou  com o dobok (roupa similar ao quimono, composta por protetores)”.
 
Fábio Almeida, o Ronim, treinador de Yandra e presidente da Federação de Taekwondo do Ceará, afirma que as mulheres se destacam, cada vez mais, no campo das lutas. O que se deve, principalmente, à disciplina e à dedicação delas.
 
“Há dois anos, Yandra é o destaque do esporte entre meninas e meninos no Ceará. É movida pela superação. Um exemplo da força feminina”, avalia o treinador.

Os próximos objetivos da atleta são tentar vaga, neste mês, na seleção brasileira juvenil e garantir a ida aos Jogos Olímpicos. Para tal, a rotina é preenchida com treinos durante o decorrer da semana.
 
Superação
 
A vida de outra adolescente, Tatielle Soares, 14 anos, também é marcada por muitas responsabilidades, entre elas, o comprometimento com o karatê, esporte que já lhe rendeu o título de campeã mundial em kumite (modalidade da luta).
 
Enfrentando resistência de parentes e amigos, a menina se tornou uma das promessas da modalidade no Ceará. O pai, Francisco Soares, é um dos principais incentivadores. É ele quem a leva aos treinos, três vezes por semana.
 
Para competir, o ritual conta com maquiagem, unhas pintadas e cabelo bem arrumado com brilho e franja de lado. O visual, que casualmente seria composto apenas pelo quimono, ganha toques femininos com fitas e fivelas no cabelo. “Amo rosa. Sempre que vou lutar, uso algum acessório e nunca esqueço de um batom básico”, conta Tatielle, vice-campeã cearense e Norte/Nordeste em kumite, no ano passado.
 
Modelo de determinação  para as atletas mais novas, como Tatielle e a filha Amanda, 23 anos,  Lenilda Moreira, 47, é uma das mulheres do karatê que mais acumula títulos no Ceará: dez campeonatos brasileiros, 11 cearenses e três mundiais. A atleta se define como uma das karatecas mais bem graduadas do País, ostentando a conquista do quinto Dan , classificação que distingue os níveis dos praticantes do esporte.

“Acho que atraímos mais olhares masculinos, já que temos preparação física diferenciada” - Lenilda Moreira, 47 anos, campeã brasileira de karatê

Na caminhada para as vitórias, repleta de desafios, Lenilda revela que muitos foram as falas e gestos preconceituosos: “No meu primeiro treino, levei dois socos de um homem que quase não me levanto. Treinei e mostrei que mulher também sabe bater. Anos depois, apliquei uma técnica neste mesmo rapaz e o deixei de joelhos”.

A fragilidade e a sensação de insegurança fundamentaram a decisão de praticar karatê, após ser vítima de assalto. “Comecei tarde no esporte, aos 22 anos. Era casada e tinha dois filhos pequenos. E ouvi muito que mulher no karatê não era mulher de verdade”, lembra.
 
Ela explica que, aos poucos e com muito esforço, foi alcançando o respeito que merecia. Para a experiente karateca, o esporte possibilita que as atletas se fortaleçam mais como mulheres, sintam-se seguras e capazes. “Consigo deixar de joelho qualquer homem. A luta não impede que se te nha família, trabalhe ou estude. Acho que até atraímos mais os olhares masculinos, pois temos uma preparação física diferenciada”, fala sorrindo.
 
Os ensinamentos de Lenilda motivaram a filha Amanda. Com apenas 4 anos, a menina deu os primeiros golpes de karatê. Hoje, faixa preta, apresenta um currículo de muitas vitórias. Dentre as principais: ouro no Pan-americano (2003) e Sul-americano (2003) e segundo lugar no Brasileiro (2009) e no Norte/Nordeste (2010).

Hábeis
 
O karatê cearense também conta com outra campeã de peso. A meiga Anna Thais Teixeira, 14 anos, é, hoje, uma das atletas de maior visibilidade no esporte. A faixa preta que contrasta com a cor branca do quimono há quatro anos é o símbolo da persistência, dedicação e competência da adolescente. Ela divide o tempo entre o tatame, escola, amigos e família. Sem falar do namorado, João Pedro, também karateca, faixa marrom.
A competência de Thais é provada com os títulos. No Campeonato Mundial, disputado em 2012, foram dois ouro, na categoria infanto-juvenil. No mesmo ano, adicionou ao portfolio o primeiro lugar no Cearense (kata e kumite), nas Copas de Kumite disputadas no Ceará e quatro ouros no Campeonato Norte/Nordeste de Karatê.

Thais coleciona ainda nove troféus de melhor karateca conferidos pela Federação Cearense de Karatê. “Treino três vezes por semana. Na época de campeonato, tenho que ir à academia todos os dias”. O esporte faz parte da rotina da garota desde os quatro anos. “O karatê é a minha vida. Mas quero casar e ter filhos. Adoro cantar e tocar violão”, revela a atleta.
 
Para Anna Thais, uma lutadora conquista sucesso por meio da disciplina. “Observo que, nas academias, as mulheres estão dominando. Elas passam a se identificar com o karatê pelos benefícios que ele pode trazer como emagrecer e aprender a se defender”, avalia.
 
Vencedora


Amiga, quase irmã de Thais, Brena Sunamita Soares é outro talento. A menina que cursa a 6ª série e tem 12 anos já é campeã mundial de karatê na categoria infantil (2012) e ouro nos campeonatos Norte/Nordeste (2012) e Cearense (2012).

Brena Soares, 12, e Anna Thais, 14, são duas promessas do karatê cearense. Ambas já são campeãs mundiais

Para conquistar tudo isso com tão pouca idade, suas palavras-chaves são treinamento e concentração. “Até minha mãe foi contra quando comecei a treinar. Costumava dizer que era muito violento para menina. Hoje, ela pensa diferente, porque não desisti e conquistei medalhas importantes”, descreve.


Dedicação: Meninas da equipe de karatê da academia Asbeka chegam a treinar todos os dias da semana

Incentivo


As histórias de perseverança e vitórias como as dessas atletas podem ser contadas por meio de uma nova ferramenta. Lançado em agosto passado, o blog Vai Encarar, do Diário do Nordeste, mostra o desempenho dos praticantes das artes marciais e os benefícios do esporte. A versão impressa da página é publicada todas as quintas-feiras no caderno Jogada.
 
Faixa preta em jiu-jítsu e uma das jornalistas responsáveis pelo blog, Thays Lavor informa que as pesquisas mensais da publicação mostram equilíbrio entre homens e mulheres no interesse pelo assunto. “Os resultados afastam o tabu de que só os homens gostam de luta. Em 15 anos, o público feminino dobrou dentro dos tatames e em campeonatos”, revela a jornalista.
 
Segundo Thays, o envolvimento delas com as artes marciais prova que, aos poucos, o preconceito vem sendo quebrado, atitude que reflete o compromisso das futuras gerações femininas. “A mulher que está na luta e se dispõe a competir não enxerga o impossível”, conclui.
 
Fonte: Diário do Nordeste.

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