Expansão residencial no sopé da Chapada do Araripe é feita sem organização
fotos: Elizângela Santos
Barbalha. A ocupação das áreas de encosta da Chapada
do Araripe tem se intensificado nos últimos anos e causado preocupação
em locais que tiveram grande crescimento populacional. Os núcleos
urbanos de cidades como Barbalha e Crato, nas áreas mais altas, chamam a
atenção pela grande quantidade de construções e avanço do setor
imobiliário.
No Caldas, distrito de Barbalha, a área urbana hoje passa por problemas
relacionados ao abastecimento de água e saneamento. Por conta da falta
de infraestrutura no local, dejetos são despejados diretamente nas
águas, contaminando córregos e rios. Fontes até já secaram, conforme
constatam moradores. O processo de fiscalização ineficiente acaba
contribuindo para que muitas dessas áreas sejam ocupadas de forma
irregular.
Os avanços, que já vêm de alguns anos, estão sendo motivo de
preocupação dos órgãos ambientais, principalmente para municípios que
convivem com problemas relacionados às inundações, como é o caso do
Crato, que já chegou a registrar várias enchentes no rio Grangeiro. De
acordo com o secretário de Meio Ambiente do Crato, Hildo Júnior, há um
trabalho de fiscalização sendo efetivado, mas apenas dois fiscais estão
atuando, para o município de média proporção em termo de amplitude.
No caso das irregularidades relacionadas à Lei de Uso e Ocupação do
Solo, há o cumprimento quando os casos são identificados. Ele diz que
inegável esse crescimento em áreas como a Vila Alta e o Grangeiro. O
secretário ainda lembra que o Crato é uma cidade de sopé de serra, o que
facilitaria a ocupação.
Desmatamento
Para o chefe da Área de Proteção Ambiental da Chapada do Araripe (APA)
com escritório em Crato, Paulo Maier, uma das grandes preocupações está
relacionada à área onde há desmatamento para as ocupações imobiliárias,
mas enfatiza o trabalho de fiscalização, para evitar que os espaços da
APA Araripe sejam ocupados. Ele destaca o visível impacto ambiental e há
áreas onde são realizadas projeções da possibilidade do aumento da
degradação ambiental. Uma delas próximo ao sítio Santa Fé, em Crato,
onde foi realizada uma análise desde 2006, quando havia seis casas na
primeira avaliação, na segunda, 16, e em janeiro deste ano chegou a 22.
Segundo Paulo Maier, é uma área para estudo e foi feita uma projeção
pela população média do Crato do consumo de água, além da geração de
resíduos sólidos, como essa realidade estaria em 2020. Conforme a
constatação, haveria um aumento de três toneladas de resíduos sólidos
para 15, além de um consumo de dois mil litros por dia de água saltando
16 mil.
Uma das situações já sentida pelos operadores é a grande demanda de
ligação de águas nessas localidades. Conforme o chefe da APA, esse é um
problema fácil de perceber e prognosticar para um próximo período, mas
de difícil solução, por não haver instrumentos legais na área ambiental,
do ponto de vista federal, para isso. Ele cita como exemplo o Estatuto
da Terra, da década de 60, que rege a matéria no artigo 65, e estabelece
que uma área rural não pode ser dividida numa parcela menor do que um
determinado tamanho, e para esta região, de Crato, Missão Velha e
Barbalha, são apenas dois hectares.
Dificuldades
"Estamos falando, no caso, em torno de sete ou oito tarefas e o que se
vê é uma super divisão dos lotes, levando ao aumento populacional,
dificuldade de acesso aos recursos e aumento de demanda para os
municípios", avalia. As dificuldades vão desde novos projetos de
infraestrutura, como o saneamento básico, ao recolhimento de lixo e
abastecimento dessas áreas. É o que acontece atualmente em áreas como o
Caldas. "Se formos para as áreas das encostas, isso agrava o problema
por estar associada a uma fragilidade, não só com relação à vegetação e
aos animais, mas à possibilidade de erosão e contaminação das águas",
explica ele.
Paulo Maier cita que, de acordo com uma projeção feita a partir de uma
tese de doutoramento da Universidade Federal do Ceará (UFC), se duas
sub-bacias do Crato tiverem um aumento de 25% de ocupação da vegetação, e
consequente impermeabilização, que é o pátio cimentado ou telhado, isso
aumentaria em 100% a ocorrência de inundações na cidade. "A água que
infiltra, que serviria para a recarga do aquífero, deixa de infiltrar e
vai para um só local, que é o canal", explica.
A APA foi criada em agosto de 1997, mas há exclusão das áreas urbanas
em seus municípios, existentes antes do decreto. No Crato, a legislação é
anterior a isso. Os distritos do Caldas e Arajara, em Barbalha, já
foram considerados áreas urbanas e não se tem o poder de ordenamento
nessas localidades pela APA. "A política de ordenamento, portanto, é dos
municípios, que têm de prever a possibilidade de ampliação das áreas
urbanas, quando necessário, e também das medidas que permitam às pessoas
terem um adensamento populacional maior e reduza a necessidade de
ampliação dessas áreas", afirma.
Dejetos
Moradores também denunciam a ausência de saneamento na localidade de
Caldas, o que tem feito com que haja um destino indevido dos dejetos e
águas dos esgotos, que estão sendo levados diretamente para a levada da
Castaca, no sítio Piquet, por exemplo, que acaba desaguando noutros
mananciais como o Ivan Coelho e Bom Jesus. O presidente da Associação
dos Moradores e Pequenos Agricultores do de Caldas, José Atanail Saraiva
afirma que pouco foi feito para resolver o problema.
Erosão
“O problema se agrava ainda mais por estar associada à possibilidade de erosão e contaminação das águas”
PAULO MAIER
Chefe da APA da Chapada do Araripe
Elizângela Santos
Repórter
Repórter
Fonte: Diário do Nordeste
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